› Home  › Notícias  › Notícia

Manifesto de solidariedade

27/03/2009

 Contra a opressão e obscurantismos patriarcais 

O Movimento Feminino Popular  se manifesta absolutamente solidário à mãe, equipe médica e à menina pernambucana de apenas nove anos que, explorada sexualmente há três por seu padrasto, realizou a interrupção de gravidez gemelar em Recife/PE no início deste mês. A justa decisão da mãe e o alto e resoluto compromisso médico e ético da equipe de profissionais envolvida asseguraram a vida e integridade da criança. De acordo com um dos médicos que acompanhou o procedimento do aborto, a menina perguntava quando iria ficar boa, pois acreditava estar com verme na barriga, revelando a consciência infantil e imaturidade condizentes com sua idade.

Além de toda a brutal violência sexual a que as duas irmãs (9 e 14anos) vinham sendo submetidas há tempos, a urgente e delicada situação de abortamento para uma menina desta idade e todas as decorrências - emocionais, psicológicas e sociais - destes acontecimentos, o padrasto, desde a prisão, ainda manda recados e ameaças de vingança à mãe da criança. Transtornadas com o tumulto e tensão dos últimos dias, a mãe e suas duas filhas não deverão regressar a sua cidade - Alagoinha - tão cedo.

Mesmo nesta situação extrema de violência perversa, degenerada e degradante a uma criança, o obscurantismo e fanatismo religioso das forças sociais mais conservadoras se expõe por completo. A medieval e repugnante condenação moral da Igreja Cattólica à mãe da criança e à equipe de médicos pretendia se impor à sociedade como a "Lei Maior". Desejosos de lançá-los juntos na fogueira da Santa Inquisição, o arcebispo de Recife e Olinda Dom José Cardoso Sobrinho decretou a excomunhão de todos eles, ação que foi abençoada e sancionada imediatamente pelo Vaticano.

Porém a pregação virou contra o pregador ", milhares de pessoas e organizações democráticas em todo o país e no mundo se manifestaram em defesa dos direitos da menina salvar sua vida (a única em questão) e, indignados, milhares pediram ironicamente que fossem também excomungados! As idéias progressistas, ao se confrontarem com tamanho atraso e fundamentalismo ganharam força, o mundo se solidariza com a pequena pernambucana e repudia os ataques perversos e coniventes de que "aborto é pior que estupro", como afirmou o arcebispo. Bastante conveniente esta afirmação da hierarquia eclesial, silenciosa quanto aos depravados crimes sexuais cometidos por inúmeros membros de sua ordem.

Esta sanha da hierarquia da Igreja em intimidar a realização do aborto seguro no Brasil está plenamente ancorada pelo Congresso Nacional, que aprovou no final de 2008 uma CPI do aborto (leia-se inquisição) para perseguir e criminalizar as mais de 1,5 milhão de mulheres que praticam o aborto por ano em nosso país - proposta por Arlindo Chinaglia, PT.  No Mato Grosso do Sul quase 10 mil mulheres estão sendo indiciadas por suspeita de terem reallizado aborto; suas fichas médicas foram expostas  ao público, uma ação ilegal e imoral do Estado. Entusiasmada com esta "caça às bruxas", a Igreja pretendeu reforçá-la, o que gerou forte repulsa e comoção popular.

Estas forças retrógradas se opõe ao direito da mulher ao aborto seguro para manter a subjugação da mulher à família,`a Igreja, e ao Estado em nossa sociedade. De acordo com o arcebispo a menina de 9 anos, grávida fruto de estupro, deveria ser obrigada a conceber duas outras crianças, ainda que isto colocasse em grave risco a sua vida e destruísse completamente seu resto de infância, sua juventude, sua independência, e mesmo ela não tendo sequer consciência do que estava em jogo! O que isto significa? Que a mulher, independente da idade ou quaisquer circunstâncias, deve se submeter a ser uma incubadora, mera reprodutora, uma vez que seu papel primordial na sociedade patriarcal em que vivemos se limita aos cuidados com filhos, marido e casa. Maternidade forçada é escravidão! Esta moral opressora visa conservar a mulher como propriedade do homem e reduzir sua prática social à escravidão do lar. São estas as forças que se opõe a descriminalização do aborto, condenando milhões de mulheres à morte, aos riscos e humilhações do  aborto clandestino e inseguro.

Nós do Movimento Feminino Popular, nos irmanamos na luta pelos direitos reprodutivos das mulheres, pelo seu direito de decidir sobre seu corpo e sua vida, pela prevalência do princípio da saúde da mulher jovem ou criança acima de qualquer supertição, religião ou imposição de qualquer outra ordem. Lutamos por construir desde já uma nova moral emancipadora, contra todas as relações de opressão, como parte da luta por uma nova sociedade, verdadeiramente democrática, que abra caminho para o socialismo e a completa emancipação feminina.

 

mfp@mfpopular.com.br