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Militante do PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL (PC do B).
Desaparecida no Araguaia desde 1972.
Nasceu em Agudos, Estado de São Paulo, a 20 de Março de 1950, filha de José Bernardino da Silva Júnior e de Julieta Petit da Silva.
De Regilena Carvalho Leão de Aquino, uma das sobreviventes da guerrilha:
“Cursou o primário, o ginasial e os 2 primeiros anos do curso normal, em Duartina, vindo a conclui-lo em São Paulo, no Instituto de Educação Fernão Dias, bairro de Pinheiros, em 1968, quando participou do movimento estudantil secundarista. Em 1969, prestou concurso para o Magistério. Foi professora primária municipal, lecionando na EMPG Tte. Aviador Frederico Gustavo dos Santos, Vila Nova Cachoeirinha; entusiasmava-se com sua experiência com crianças da Zona Norte de São Paulo.
Em inícios de 1970, fez sua opção política: desenvolver seu trabalho no interior do Brasil. Militante do PC do B, foi para o interior de Goiás e logo após para o Sul do Pará. Maria Lúcia dedicou-se ao magistério e ao trabalho na roça, conquistando grande simpatia dos moradores da redondeza. A partir da sua vivência no Araguaia, ela adquiriu maior conhecimento da terrível situação de abandono e miséria na qual vegetam os trabalhadores rurais e a população camponesa.
Em 1972, o Exército Brasileiro cercou a região do Araguaia, onde se encontrava Maria Lucia, e aí reprimiu a guerrilha que se desenvolveu em conseqüência da forte repressão militar.
Segundo depoimentos de alguns sobreviventes, no dia 16 de Junho de l972, ao se aproximar da casa de um camponês, Maria Lucia foi fuzilada por tropas do Exército, sob o comando do Gal. Antônio Bandeira, da 3ª Brigada de Infantaria.
Maria Lucia foi morta em plena juventude por tentar manter vivos ideais de liberdade e justiça social no período da ditadura pós-64. Sua família não recebeu até hoje o comunicado oficial de sua morte, um atestado de óbito, por parte das Forças Armadas, nem sequer a informação do paradeiro de seus restos mortais.
Às primeiras horas do dia 16 de junho de 1972, a menos de 2 Km da casa do ‘João Coioió’, Jaime (Jaime Petit da Silva), Daniel (Daniel Ribeiro Callado) e eu, fomos acordados com o disparo de um tiro ao longe e um outro tiro em seguida. Da mesma direção dos sons dos disparos, metralhadoras foram acionadas, quando o ruído distante de um helicóptero em movimento, tornava-se próximo das imediações. Estávamos acampados na retaguarda para aguardar Maria (Maria Lúcia Petit da Silva), Cazuza (Miguel Pereira dos Santos) e Mundico (Rosalindo de Souza) para ajudá-los no transporte dos mantimentos encomendados ao ‘João Coioió’. Retiramo-nos imediatamente e, ao final da tarde, acampamos nas cabeceiras da chamada Grota da Cigana. Momentos mais tarde, enquanto preparávamos o jantar, milho maduro em água de sal, cozido em fogo brando para esperar os três companheiros ausentes, surgiram Cazuza e Mundico, ensopados de suor e aflição. Perguntei pela Maria e a resposta do Cazuza foi direta e crua: ‘a reação a matou’.
“No dia anterior, os três viajaram para apanhar as sacas de farinha e outros víveres, já pagos, a serem comprados em São Geraldo-PA por ‘João Coioió’, um dos tropeiros da estrada do Pará da Lama. A data combinada para a entrega das mercadorias estava marcada para o dia 16 de junho de 1972, pela manhã. Maria acordara febril e menstruada. Enquanto eu mudava o curativo de uma ferida de leishmaniose no dorso da sua mão esquerda, conversávamos sentadas na mesma rede. Ela não aceitou ser substituída naquela tarefa, pois acreditava ser a sua relação de amizade com a família ‘Coioió’ a mais forte do grupo. Era ela a prometida madrinha do terceiro filho que ‘Lazinha’ esperava do ‘João Coioió’.
Mundico contou, então, o ocorrido: na tarde de 15 de junho de 1972, os três transitavam por um trecho da estrada do Pará da Lama quando, casualmente, encontraram-se com um trabalhador da região conhecido por “China”, que os viu encaminharem-se à picada em direção à morada do ‘João Coioió’. Souberam através do ‘China’ que não havia tropas militares naquelas proximidades. Aos fundos da casa do ‘João Coioió’, dentro da mata, armaram suas redes para, na manhã seguinte, conduzirem as sacas de farinha e outras mercadorias compradas.
Durante várias horas da noite ouviram ruídos de homens e animais em movimento constante, fazendo-os supor que fosse a tropa de burros chegando com o material adquirido em São Geraldo/Pa. Em determinado momento, Cazuza e Mundico perceberam alguns sussurros masculinos que interpretaram como ‘mata, mata’, do verbo matar. Às 6 h da manhã, não associaram a movimentação da noite anterior ao silêncio daquele amanhecer: os cachorros não latiram e não havia sinal aparente de vida naquela casa. Criou-se um clima de desamparo diante daquela atmosfera triste, mas a ação de recolher a comida foi condição mais forte.
Maria, à frente. Ainda na escuridão da mata, Mundico e Cazuza seguiam-na a curta distância. Quando saiu da penumbra, andou alguns passos e foi iluminada pela claridade do dia, ouviram-se dois tiros, intercalados por segundos. Mundico chegou a vê-la caindo e a ouvir seus gemidos de dor “ai, ai, ai”, antes do estrondo provocado pelas metralhadoras tocaiadas na lama do quintal. Mundico e Cazuza jogaram-se de volta ao interior da mata, em direção oposta à origem das balas que já os alcançavam.
‘Dona Valdó’, filha do ‘Souza Lima’ e mulher do ‘Seu Manoel’, nossa vizinha mais próxima, falou em tom de lamento: ‘Coitada da finada Maria’. ‘Coioió’, quando viu a finada sendo levada pelos ‘federais’, enrolada em um cobertor ensangüentado, sofreu uma crise de nervos e se borrou todinho na hora. O corpo tremia inteiro e não parava em pé. Tiraram ele e a família de 1á. Ninguém mais soube deles’.
Quando estive presa na base militar de Xambioá-Go, alguns oficiais mostraram-me objetos do seu uso pessoal: um par de chinelos de sola de pneu com alças retorcidas de nylon azul claro, e uma escova de dentes de cor amarela e com o cabo quebrado. Reconheci tais objetos que realmente pertenciam a Maria, que os guardava em um bornal de lona verde, permanentemente usado a tiracolo. Afirmaram que fora enterrada em São Geraldo-PA, cidade em frente e separada de Xambioá-Go pelo rio Araguaia
Em Brasília-DF, no presídio da 3ª Brigada de Infantaria, em agosto de 1972, o general Antônio Bandeira, então seu comandante, disse que Maria fora morta por um recruta inexperiente, logo retirado daquela área. O recruta, segundo o general, viu Maria como se fosse um menino, caminhando cauteloso e atento, portando uma espingarda. ‘Parecia um veadinho cismado, a espreita do perigo’, disse o general. Considerou Maria como uma ‘menina de 17 anos que nem seios possuía’ e afirmou que os exames realizados por médicos militares em seu corpo sem vida, constataram que ela era virgem aos 22 anos de idade.
Em entrevista gravada pelo padre francês Aristides Camio, em 1984, quando exercia seu ministério naquela região, ‘Dona Nenzinha’, parteira da estrada do Pará da Lama e moradora próxima da casa do ‘João Coioió’, confirmou a morte da Maria e disse ter sido o próprio ‘João Coioió’ quem avisou as Forças Armadas sobre o dia marcado para a visita dos três companheiros. Segundo ela, a emboscada preparada ao redor daquela casa, era composta por muitos militares distribuídos entre as árvores mais próximas e sobre o paiol de milho. Disse ainda que, na noite seguinte à morte da Maria, os guerrilheiros retornaram àquele local e mataram os cachorros do ‘João Coioió’. Essa informação não confere, pois, nenhum de nós voltou àquela casa. Pode ser associada as palavras, ouvidas pelo Mundico e pelo Cazuza, ‘mata, mata’, dirigidas aos cachorros da casa, farejadores e denunciadores de presenças estranhas que, no caso, seriam os próprios militares.
No dia 15 de junho de 1972, Maria usava calças compridas de brim cinza, camisa cáqui, botinas de cor marrom e um bornal de lona verde atravessado no peito, a tiracolo. Na cintura, um cinto de couro que sustentava, do lado esquerdo, um revólver de calibre 38, com 6 balas no tambor, e do lado direito, um facão medindo cerca de 50 cm de comprimento, protegido por uma bainha de couro. Levava uma espingarda de calibre 20, carregada com um cartucho, verde, de calibre correspondente. Usava óculos de grau e um relógio de pulso, com a pulseira feita de couro de veado.
De dentição perfeita, com exceção do primeiro molar superior esquerdo, cujo bloco havia caído e, com o tempo se quebrara, permanecendo, entretanto, um pedaço do dente e a sua raiz, Maria era ligeiramente estrábica e, na época, usava os cabelos cortados bem curtos, mas vastos e pretos.”
O Relatório do Ministério da Marinha diz que Maria Lúcia “foi morta durante enfrentamento na tarde do dia 16/6/72, próximo a Pau Preto.”
De Regilena Carvalho Leão de Aquino, uma das sobreviventes da guerrilha:
seus irmãos Jaime e Lúcio Petit também estão desaparecidos na região da Guerrilha do Araguaia.
Em 1991, familiares de mortos e desaparecidos do Araguaia, juntamente com membros da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e a equipe de legistas da UNICAMP, estiveram em um Cemitério da cidade de Xambioá, onde exumaram duas ossadas. Uma de um velho, negro, provavelmente Francisco Manoel Chaves (desaparecido na Guerrilha do Araguaia) e outra, de uma mulher jovem enrolada num pedaço de paraquedas, que poderia ser Maria Lúcia ou Áurea Eliza Pereira Valadão. Esses restos mortais foram encaminhados para a UNICAMP, mas até agora não se tem as conclusões da investigação dos técnicos do Depto de Medicina Legal.
Retirado do site do Grupo Tortura Nunca Mais / RJ